A decisão da pesquisadora e médica Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em declarar apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o pleito de 2026 acendeu debates profundos sobre a relação entre a ciência brasileira, a política partidária e a morosidade do financiamento público no país.
Desenvolvedora da polilaminina — substância experimental que estuda a recuperação de movimentos em pacientes com lesões na medula espinhal —, Tatiana é responsável por um dos projetos científicos de maior potencial humanitário do Brasil. No entanto, o entusiasmo demonstrado ao exclamar "Bora, Lula!" contrasta fortemente com o histórico de abandono e entraves que a própria pesquisa enfrentou ao longo de mais de duas décadas.
Duas décadas de espera e a incoerência do entusiasmo
A pesquisa sobre a polilaminina é conduzida há cerca de 25 anos. Durante a maior parte desse período — que inclui os mandatos anteriores do próprio Partido dos Trabalhadores (PT) e de outras gestões —, o projeto caminhou a passos lentos, enfrentando as recorrentes crises de desabastecimento orçamentário e a burocracia sufocante que historicamente asfixiam a ciência nacional.
Levou um quarto de século para que um projeto de impacto global conseguisse atenção direta do Poder Executivo e avançasse para etapas decisivas. Que a pesquisadora comemore ser finalmente ouvida é compreensível do ponto de vista pessoal; porém, transformar a abertura pontual de portas em pauta eleitoral gera questionamentos inevitáveis:
Institucionalização x Personalismo: O apoio da ciência a projetos de pesquisa não deveria depender do acesso direto ou da boa vontade de um presidente da República, mas sim de políticas públicas sólidas e perenes de Estado. Celebrar que "encontrou portas abertas" com um governante evidencia, na verdade, uma falha estrutural do sistema, no qual projetos vitais só andam quando chegam ao gabinete presidencial.
A demora de 20 anos: A celebração política desconsidera o tempo perdido. Quantas vidas poderiam ter sido impactadas se o investimento massivo e a simplificação regulatória tivessem ocorrido há 10 ou 15 anos? Personalizar o avanço científico na figura de Lula apaga o longo histórico de omissão estatal com a saúde e a inovação tecnológica no Brasil.
O gargalo regulatório: a burocracia que paralisa a inovação
O caso da polilaminina, que atualmente aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar para ensaios clínicos mais amplos, expõe uma das maiores chagas da ciência médica no Brasil: a lentidão do sistema regulatório e ético.
Enquanto agências internacionais como a FDA (nos Estados Unidos) ou a EMA (na União Europeia) possuem rotas expressas (fast-track) e prazos bem definidos para avaliar terapias inovadoras de alto impacto, o ecossistema brasileiro é marcado por entraves contínuos:
Sistemas de avaliação duplicados: O caminho entre a bancada do laboratório e o paciente exige a aprovação do sistema CEP/CONEP (Comitês de Ética em Pesquisa) e da Anvisa. A sobreposição de exigências burocráticas frequentemente arrasta análises por anos, congelando testes que poderiam estar salvando vidas ou devolvendo mobilidade a pacientes.
Falta de infraestrutura para ensaios clínicos: A morosidade na liberação de importação de reagentes, insumos básicos e equipamentos em portos e aeroportos atrasa cronogramas em meses. Pequenas barreiras alfandegárias muitas vezes inviabilizam lotes inteiros de insumos sensíveis à temperatura.
Fuga de cérebros e transferência de patentes: Devido ao tempo excessivo de resposta do Estado, muitas pesquisas promissoras desenvolvidas nas universidades públicas brasileiras acabam sendo vendidas ou continuadas no exterior, onde o ambiente de inovação é mais célere e previsível.
Depender de audiências diretas com o presidente da República para destravar entraves que deveriam ser resolvidos por fluxos regulatórios eficientes demonstra que o país continua refém do fisiologismo e da falta de processos institucionais ágeis.
O risco da partidarização da pesquisa científica
Ao alinhar publicamente uma descoberta científica de interesse público a uma candidatura presidencial, cria-se um precedente arriscado para a neutralidade da ciência. A polilaminina não é uma conquista de um partido político, mas sim do investimento dos contribuintes e do esforço contínuo de cientistas de uma universidade pública.
Atrelar o futuro de uma promessa terapêutica ao jogo eleitoral de 2026 pode comprometer a percepção de isenção da pesquisa, além de condicionar o progresso científico a ciclos políticos transitórios. A ciência brasileira precisa de financiamento contínuo, regulação ágil por parte da Anvisa e infraestrutura permanente — não de favoritismos eleitorais ou retribuição de apoio em momentos de campanha.
