Decisões judiciais, cancelamento do debate da Globo e crescimento de Flávio colocam a reta final da eleição presidencial sob forte tensão
A eleição presidencial de 2026 entrou em sua fase decisiva cercada por acontecimentos que podem mudar a percepção do eleitorado nos últimos dias antes da votação.
O episódio que mais chamou atenção nesta quinta-feira foi o cancelamento do debate da TV Globo depois da desistência de Flávio Bolsonaro e da ausência já anunciada de Luiz Inácio Lula da Silva.
A crise começou depois de decisões judiciais envolvendo o formato do programa. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Renan Santos, candidato do Missão, fosse incluído no debate. Pouco depois, Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria do confronto. A Globo acabou cancelando o programa.
O "fiasco da Globo" pode virar combustível para Flávio
O que deveria ser o último grande confronto televisivo antes do primeiro turno acabou não acontecendo.
Politicamente, o episódio oferece a Flávio Bolsonaro uma oportunidade de transformar sua ausência em discurso de campanha, especialmente entre eleitores que já demonstram desconfiança em relação à atuação do Judiciário e dos grandes veículos de comunicação.
Flávio declarou que desistiu do debate em razão do que classificou como "censura" imposta ao evento pelo TSE. A justificativa foi contestada politicamente por adversários, mas o fato objetivo é que as decisões do Judiciário alteraram o formato originalmente planejado pela emissora.
O episódio também impediu um confronto direto entre Flávio e Renan Santos, que havia se tornado especialmente esperado depois da decisão de Gilmar Mendes.
Flávio chega à reta final em crescimento
Os números mais recentes mostram uma disputa concentrada principalmente entre Lula e Flávio.
Na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, Lula aparece com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 40%. Augusto Cury tem 4%, Ronaldo Caiado 3% e Renan Santos 3%.
O levantamento mostra que Flávio avançou de 39% para 40% dos votos válidos em uma semana, enquanto Lula passou de 43% para 45%.
Ainda não há, portanto, maioria suficiente para uma vitória no primeiro turno. Para isso, seria necessário ultrapassar 50% dos votos válidos.
Mas a margem entre os dois principais candidatos e a concentração do eleitorado fazem com que cada movimento dos últimos dias tenha peso significativo.
E se Flávio virar o jogo no domingo?
É justamente nesse ponto que surge a possibilidade levantada por setores da campanha bolsonarista: uma arrancada final poderia levar Flávio Bolsonaro a ultrapassar a marca necessária para encerrar a disputa já no primeiro turno.
Essa possibilidade, porém, não pode ser apresentada como resultado já definido. Pesquisa eleitoral mede intenção de voto no momento da entrevista e não constitui previsão do resultado. A própria divulgação do Datafolha ressalta que mudanças de última hora e abstenção podem alterar o resultado final.
Renan Santos e a disputa dentro do campo oposicionista
O episódio envolvendo Renan Santos acrescentou outro elemento à eleição.
A decisão de Gilmar Mendes garantiu ao candidato do Missão participação no debate da Globo. O ministro justificou a decisão com base, entre outros pontos, no critério estabelecido pela própria emissora e na posição de Renan nas pesquisas. O pedido judicial havia sido apresentado pelo Solidariedade.
A situação ganhou repercussão porque Renan tem construído sua candidatura apresentando-se como crítico de setores da direita tradicional e, particularmente, de Flávio Bolsonaro.
Com a entrada de Renan no debate, ele teria a oportunidade de fazer um contraponto direto ao candidato do PL. Uma análise publicada pela Folha antes da decisão de Gilmar classificava Renan como o candidato que provavelmente faria o contraponto mais forte a Flávio naquele debate.
Renan está se aproximando da esquerda?
Essa é uma das questões que começam a aparecer com mais força no debate político.
Renan Santos concorre pelo Missão e aparece nas pesquisas com percentuais baixos, entre 3% e 8%, dependendo do instituto e da metodologia. No levantamento Datafolha divulgado nesta quinta, ele aparece com 3% dos votos válidos.
A classificação de Renan como candidato de esquerda, entretanto, não corresponde simplesmente aos números eleitorais. Para avaliar essa questão com precisão, é necessário observar suas posições sobre economia, costumes, segurança, Estado, STF e alianças políticas.
O que está documentado nesta reta final é que Renan se apresenta como opositor de Flávio Bolsonaro dentro do campo político identificado com a direita, enquanto seus ataques ao candidato do PL podem acabar produzindo efeitos políticos semelhantes aos buscados por adversários de Flávio.
É justamente essa contradição que deve ser explorada pelo eleitor: Renan pretende ocupar uma posição independente dentro da direita ou está se aproximando de pautas e setores que tradicionalmente fazem oposição ao bolsonarismo?
A resposta depende da análise de suas declarações, alianças e propostas, e não apenas de sua participação no debate.
Gilmar Mendes e a nova controvérsia
A decisão de Gilmar Mendes também abriu uma discussão política porque o ministro do STF passou a ter influência direta sobre a composição de um dos últimos debates da campanha.
É importante, entretanto, separar fato de interpretação.
Fato: Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos.
Fato: Flávio Bolsonaro anunciou sua desistência depois da decisão.
Fato: a Globo posteriormente cancelou o debate.
Interpretação política: adversários de Renan podem utilizar a sequência dos acontecimentos para questionar sua narrativa de independência em relação às instituições que ele próprio critica.
A decisão judicial, isoladamente, não comprova qualquer proximidade pessoal ou acordo político entre Gilmar Mendes e Renan Santos.
A eleição entra na fase mais imprevisível
Com apenas três dias para o primeiro turno, a disputa chega ao momento em que os movimentos de campanha podem ter grande repercussão.
Flávio Bolsonaro aparece consolidado como principal adversário de Lula nas pesquisas e reduziu a distância em relação ao presidente no levantamento mais recente.
A possibilidade de uma vitória de Flávio no primeiro turno existe como cenário político a ser acompanhado, mas os números disponíveis nesta quinta-feira ainda não permitem afirmar que isso acontecerá.
O domingo será decisivo.
Até lá, o eleitor terá diante de si uma eleição marcada por uma disputa central entre Lula e Flávio, por candidatos tentando ocupar espaços intermediários e por uma sucessão de decisões judiciais que colocou novamente STF, TSE, partidos, candidatos e grandes veículos de comunicação no centro da discussão.
E o episódio da Globo, que deveria ser apenas mais um debate eleitoral, acabou se transformando em um dos acontecimentos políticos mais comentados da reta final da eleição de 2026.
