Manifestação divulgada em defesa da UESC reacende o debate sobre a presença de discursos partidários dentro das universidades públicas e o respeito à pluralidade de ideias.
A Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), localizada entre Ilhéus e Itabuna, no sul da Bahia, é uma instituição de ensino superior de grande importância para a formação profissional, a produção científica e o desenvolvimento regional. Justamente por sua relevância, a universidade deve ser um espaço de liberdade, respeito e convivência democrática, onde diferentes correntes de pensamento possam se manifestar sem constrangimentos.
Uma manifestação que associa a defesa da universidade pública a um discurso de exaltação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva levanta um questionamento necessário: a universidade deve servir à formação crítica dos cidadãos ou à promoção de lideranças e projetos políticos?
A defesa do ensino público, da inclusão social e da ampliação do acesso ao ensino superior é legítima e necessária. Entretanto, essas pautas não devem ser utilizadas como justificativa para transformar instituições públicas em palanques políticos. A universidade pertence à sociedade, é sustentada por recursos públicos e deve acolher estudantes, professores e pesquisadores com diferentes visões de mundo.
Inclusão social não pode ser monopólio de um partido
Programas como o ProUni, o FIES e o Sisu contribuíram, em diferentes medidas e contextos, para ampliar as possibilidades de acesso ao ensino superior. O debate sobre seus resultados, porém, precisa considerar dados, políticas públicas e a participação de diferentes governos ao longo da história.
A inclusão educacional não é propriedade de um partido, assim como a universidade pública não pertence a um presidente, a uma corrente ideológica ou a um grupo político. Trata-se de um patrimônio coletivo, construído ao longo de décadas por professores, servidores, estudantes, pesquisadores e pela sociedade brasileira.
Reconhecer os avanços sociais não exige fechar os olhos para problemas, questionamentos ou resultados que mereçam avaliação. Da mesma forma, defender a educação pública não obriga ninguém a apoiar Lula, Bolsonaro ou qualquer outra liderança política.
O respeito à história da Bahia exige responsabilidade
A Bahia possui uma história marcante na luta pela Independência do Brasil. O 2 de Julho de 1823 simboliza a consolidação da expulsão das forças portuguesas de Salvador e ocupa lugar central na memória cívica baiana.
Essa história de resistência pode inspirar a defesa da liberdade e da participação popular. Mas a liberdade defendida pelos baianos também deve incluir o direito de discordar, criticar governos e questionar discursos políticos, sem que isso signifique ser contra a educação, contra os trabalhadores ou contra a população mais pobre.
A verdadeira democracia não se constrói pela imposição de uma visão ideológica, mas pelo respeito às diferenças e pela garantia de que todos possam expressar suas opiniões.
Universidade pública precisa de pluralidade
O repúdio não é à participação política de estudantes ou professores, que têm o direito de expressar suas convicções. A preocupação está na possibilidade de que a defesa de uma instituição pública seja confundida com a promoção de uma liderança partidária.
Se a universidade deve combater o autoritarismo, esse princípio precisa valer para todos os lados do espectro político. Se deve defender a liberdade de pensamento, precisa garantir espaço também para quem discorda das ideias predominantes no ambiente acadêmico.
A formação universitária exige questionamento, investigação, confronto de argumentos e compromisso com os fatos. É nesse ambiente que os estudantes desenvolvem autonomia intelectual para avaliar governos, partidos e políticas públicas.
O dinheiro público exige compromisso com toda a sociedade
A UESC tem uma missão que ultrapassa disputas eleitorais: formar profissionais qualificados, desenvolver pesquisas, produzir conhecimento e contribuir para o desenvolvimento da Bahia.
Por isso, é fundamental que a instituição preserve um ambiente acadêmico aberto, democrático e plural, no qual a diversidade de ideias seja tratada como uma riqueza, e não como uma ameaça.
Defender a universidade pública não significa defender um partido. Defender a democracia significa garantir que ninguém seja obrigado a concordar com uma ideologia para ser reconhecido como cidadão ou integrante da comunidade acadêmica.
O ensino superior deve formar pessoas capazes de pensar por conta própria, questionar o poder e avaliar criticamente todas as lideranças políticas. A universidade pública é de todos os brasileiros — e sua maior contribuição à democracia é justamente ensinar que nenhuma autoridade, partido ou ideologia está acima do debate.
Diário Grapiúna — Opinião e debate público.

